19 de março de 2013

Alfabetizar com quantos anos?

Uma das grandes preocupações dos pais e da sociedade é sobre o momento de alfabetizar, o governo brasileiro lançou uma campanha dizendo que a meta é alfabetizar até o  3 ° ano, eu já alfabetizei crianças com  5 anos e também com 10 anos, são completamente diferentes, a criança que chega no Ensino Fundamental sem conseguir ler e escrever, já chega desestimulada, desanimada e esperar até o 3 ° ano para completar este ciclo é apostar no fracasso. Uma Educação Infantil de qualidade, cercada de estímulos de leitura e escrita é a base para a formação de um aluno leitor, a criança chega ao primeiro ano curiosa, apaixonada pelas letras e assim, com todo um trabalho envolvente, de reflexão, a criança se alfabetiza. Trago abaixo a reflexão do João Batista Araujo e Oliveira (educador e presidente do Instituto Alfa e Beto) para que possamos debater sobre o assunto.

Imagem retirada do site do mec


​"O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, diz que é para alfabetizar as crianças até o final do 3º ano. Já a secretária municipal de Educação do Rio, Cláudia Costin, afirma que, na cidade, a alfabetização deve ocorrer até os seis anos, no 1º ano. Paula Louzano, da Universidade de São Paulo (USP), apontou, no programa Bom Dia Brasil, que deve ser aos seis anos, como na escola privada. O IBGE afirma que 15% dos alunos do 3º ano são analfabetos. E os dados da Prova Brasil de Língua Portuguesa indicam que cerca de 60% dos alunos do 5º ano não conseguem fazer uso da língua. Certamente, não se está falando da mesma coisa.

​Eis o cerne da questão: o que é alfabetização? O que é alfabetizar? Como saber se o aluno está alfabetizado? Por que tanta polêmica em torno disso?

​A questão é ideológica, e precisa ser debatida nesses termos. A comunidade científica internacional não tem dúvidas sobre o que seja alfabetizar. Se o ministro quiser, encontrará na Capes ou entre seus antigos colegas do Ministério de Ciência e Tecnologia quem lhe informe sobre a Ciência Cognitiva da Leitura. Os países que têm nota boa no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) sabem o que é alfabetizar e quando se faz isso. Em todos eles, isso se dá em um ano, começa e acaba no 1º ano da escola. Finlândia e Itália levam seis meses, França pouco mais de um ano por causa da ortografia, não da leitura. Só os países de língua inglesa – ricos ou pobres – demoram mais devido à complexidade de seu código alfabético. Se quiser, o ministro tem como se informar.

​Por que o Brasil não se alinha com esse entendimento? Porque as Faculdades de Educação consideram – desde a década de 1980 – que alfabetizar nesse sentido compartilhado internacionalmente é algo menor, mecânico, depreciativo e, sobretudo, algo que não pode ser ensinado e avaliado como tal? O que nos credencia à tamanha arrogância?

​Se não houvesse tanta ideologia, seria fácil resolver a questão. Bastaria um programa de ensino que prescrevesse o que deve ser ensinado no 1º ano e como isso seria avaliado – na escrita e na leitura inclusive na fluência de leitura. Se o Brasil quisesse avançar mais depressa, também exigiria que as escolas ensinassem usando os métodos de alfabetização comprovadamente eficazes. Esses existem, são conhecidos e a diferença que fazem é enorme. O ministério afirma o contrário, mas está equivocado e com isso prejudica o país. O resto – todo o resto – é questão de programa de ensino de Língua Portuguesa ou de outras coisas – certamente não existe alfabetização matemática e o contorcionismo verbal faz mais mal à saúde mental do que o cigarro para o pulmão.

​Na recente votação na Câmara dos Deputados sobre o desastrado programa da alfabetização na Idade Errada, um terço dos deputados se opôs à medida. É inédito. Cabe ao Senado aprofundar o debate.

O governo pode estar bem com grupos da universidade, mas está perdendo sintonia com a sociedade. É pouco provável que o ministro esteja na pasta daqui a três anos para avaliar o tamanho do desastre. Ele pode até ganhar a batalha agora. Mas o Brasil perde a guerra."

E você professor? O que acha dessa campanha?


9 comentários:

Dorli disse...

Olá, querida
Eu lecionei durante 34 anos fora trabalho burocrático municipal.
Eu lecionei na fazenda e lhe digo uma coisa; alfabetizar para mim é tão fácil como beber água.
Quando cheguei na fazenda, eram 3 séries, a 1ª, 2ª e 3ª estavam ao meu ver analfabetos, sabe um dos problema?. A fome. Meu horário era das 7,30h às 11,30h, tinha ao todo 20 alunos. Passava na cozinha piloto às 6,30he mentia que tinha 40 alunos.
Antes de entrar para as aulas eles eram alimentados, meio às pressas, e antes de sair parava 20' para o almoço e ensinei cada aluno a lavar seu prato e talher.
Ficaram fortinhos e aprenderam a ler e escrever em 4 meses. É um método diferenciado que tenho que já expliquei no outro blog, que é infantil Mundo dos Inocentes.
Não adianta reclamar do sistema, eu era do tipo que fazia do meu jeito e ninguém não se intrometia no meu trabalho e era um sucesso.
Eu tive um ano um aluno com deficiência mental, ele ficou comigo durante 3 anos, o ensino era diferenciado e chegou no final do terceiro ano saiu estava lendo e escrevendo, não há dinheiro que pague essa satisfação.
Hoje não trabalho mais, dedico-me aos meus dois bogs e leio de tudo.
Um beijo, já fale demais
Obrigada
Lua Singular

Mônica Lima Andrade disse...

Sou professora, mas ainda estou engatinhando na profissão e mesmo com pouca experiência, não concordo com esse projeto que o governo esta nos apresentando .
Gente , desde quando as crianças tem que esperar tanto tempo assim para ser alfabetizada , é ir jogando com eles, empurrando para as series seguinte sem nenhuma noção ..Muito tempo para fazer uma coisa tão simples ..
Não concordo! E estou fazendo de tudo para que ao final desse ano, meus alunos sejam aprovados por méritos deles e não por que o governo impôs que eles passem de ano por que a criança não pode ser retida..
Bjus!

melissa disse...

São esses momentos que fazem nossa profissão valer a pena! Também já alfabetizei crianças com deficiência, taxadas como incapazes e fiquei muio feliz por eles

melissa disse...

Isso mesmo Mônica,o professor não pode se acomodar,as crs são capazes!Parabéns pelo seu empenho!Bjs

Divagações da Mamãe Tê disse...

Oi Melissa, não sou professora, sou mãe apenas. Minha pequena tem 6 anos, e aos 5 anos e 9 meses começou a ler... e fluiu rapidamente a leitura. Hoje com 6 anos e 3 meses ela lê fluentemente e escreve muito bem também.

Nunca forçamos nada em casa. Apenas estimulamos (também por prazer) a leitura com livros e outras coisas. Ela é curiosa. Pedia para soletrar as palavras. Então, veio o aprendizado.

Quando estudei, o antigo primário. Começávamos a alfabetização com 7 anos. E acho que dali mesmo ja saiamos lendo. Hoje começam mais cedo.
As crianças são muito curiosas, minha filha é por isso aprendeu.

Estender até o 3 ano talvez seja um pouco demais. Vejo muitas mães ansiosas agora, pq seu filho ainda não lê, apesar de cada um ter seu tempo.
Mas acho que depende tanto da escola quanto do estímulo em casa. As vezes não ha esse estímulo e os pais cobram dos filhos...

Fico em meio termo. Não antecipar tanto a alfabetização, nem estende-la. A própria criança por se sentir constrangida por não saber ler...

É um caso a refletir...

Abraços.

Genis Borges disse...

Oi Melissa, pelo o que acompanho lá nas escolas, vejo que algumas crianças realmente não são alfabetizadas no 1º ano e conseguem um grande progresso no 2º e 3º ano, mas muito professores reclamam, acham que essas crianças deveriam ficar 'retidas', pois precisam fazer um trabalho diversificado que por vezes tomam muito tempo.
Eu penso muito no 'tempo' da criança. Há crianças que realmente tem mais dificuldade e o olhar da escola, da família e principalmente do alfabetizador, tem que ser um olhar especial, paciente e acolhedor. Se não for dessa forma, a criança poderá se travar, ficar com auto estima baixa e ter muitas dificuldades no futuro.
Grande beijo, Genis

Toninha Ferreira disse...

Realmente as crianças não são alfabetizadas e muitas saem do 9º ano sem saber escrever. E quem acompanhou a reportagem sobre a redação na prova do ENEM e os erros gritantes de português que foram encontrados, viu que eles não veem isso e sim o contexto e forma se entenderam o tema. É uma vergonha e desanimador ao mesmo tempo.
Bju Toninha

Anne Lieri disse...

Penso que não é o governo que pode dizer quando uma criança deve ser alfabetizada,mas a professora de acordo com o que ela conhece daquela criança. Cada um é um ser único com capacidades e motivações diferentes e a alfabetização não é um milagre que acontece quando se quer.Até parece um milagre,quando a gente vê uma criança lendo pela primeira vez,mas é um processo trabalhoso, um caminho com diversas etapas traçado por cada um.Já tive alunos de 5 anos alfabetizados e outros, já adultos,na suplencia e que não conseguiam ler e entender um texto.Tudo é muito relativo.Excelente proposta de reflexão, Melissa!bjs,

Vanessa Gonçalves Vieira disse...

Oi Melissa. Gostei muito do tema. Mas entendo de uma forma diferente este "estender a alfabetização até o 3º ano.

Acredito que a alfabetização seja um processo longo. Uma aprendizagem que é estendida ao longo da vida. Não creio que estejam dizendo que alfabetizar até o terceiro ano esteja somente ligado à aquisição da leitura e da escrita, mas sim do completo, ou mais completo possível, domínio do mesmo. Creio que seja uma reformulação de algo que já existia.

As crianças aprendem a ler e ao longo dos outros anos vão consolidando o aprendizado. Mas isso não estava ocorrendo porque muitos professores não dominam o português e muitos não sabem como ensinar a ler e escrever efetivamente, o que causou sim aumento e atraso na alfabetização dos alunos.

Interessante os dados citados pelo autor, mas não podemos esquece que nosso pais não foi desde o início um pais voltado para a escrita. O trabalho que teremos é realmente mais árduo e enquanto tivermos pais, mães e professores educados com deficiências, mais difícil será o nosso trabalho de alfabetizar.

Para este programa de alfabetização na idade certa o governo está oferecendo curso aos professores. Entendo que não seja o ideal, aquilo que todos desejam, mas acredito que nós professores devemos aproveitar o máximo que pudermos deste curso. Que devemos buscar com as próprias pernas novas formações. E principalmente que os professores que fizerem este curso continuem trabalhando com os segmentos e gerando cursos para outros professores que porventura chegarem nas escolas.

alfabetizar na idade certa, no meu entender não está somente ligado à idade, mas sim à um conjunto de ações que a escola precisa ter. Entre eles a ação compartilhada e professores que realmente abraçam suas profissões.

Parabéns à você Mel e você Dorli, que passaram por essas etapas e conseguiram cumpri-la com louvor.

Desculpem o texto enorme meninas!