4 de março de 2012

Sendo Personagens...

Olá pessoal,

Vencemos mais uma semana hein!? 

Bom, primeiramente gostaria de agradecer as leituras e comentários da semana passada. Fiquei muito feliz em saber que este assunto contagia vocês também. Depois de uma bela sugestão da Cristina Chabes, me comprometi a trazer, para aguçar nossa curiosidade, um resumo do primeiro capítulo do livro, mas infeliz mente não consegui prepará-lo para esta semana. Prometo que o farei na semana que vem.
Mas, para não perdermos o tema, trouxe hoje um texto que me é muito especial. Um texto que reforça o que disse na semana passada sobre os personagens que somos dentro da História Educação. 
O texto é do do professor Cesar Augusto Dionísio, também economista e autor do livro Mais textos: uma visão sobre educação.


O professor e seus personagens


Uma cena especial do filme Chaplin sempre ressuscita em minha mente: é a cena na qual o gênio do cinema mudo e dos primeiros anos do filme falado constrói o personagem Carlitos por completo. Chaplin tem alguns minutos para se apresentar num teste para o diretor. Ainda sem o chapéu e sem a bengala (e existe Carlitos sem o chapéu e a bengala?). Entra Chaplin, então, numa sala enorme repleta de figurinos com múltiplas possibilidades de combinações. Chapéus, bengalas e muito mais. Chaplin conta que algo mágico aconteceu naquele momento: o chapéu preto veio voando direto até sua mão, a bengala, nervosa, inquieta, começa a se mexer e ele percebe que é aquela que ele deve usar. Assim, tudo sem esforço. Depois de dizer que foi muito, muito fácil encontrar a combinação ideal do figurino para o personagem que o acompanharia sua vida inteira, ele comenta: foi tudo mentira. 


Em seguida, aparece uma sequência que revela um Chaplin afoito, apressado, ansioso, nervoso e aflito provando dezenas de chapéus, bengalas, ternos, sapatos e o que mais pudesse para construir o seu melhor Carlitos. Difícil. É assim que construímos nossos melhores personagens. Quantos personagens precisamos ser para que o ritual sagrado da educação aconteça tão naturalmente que nem percebamos? Como professores, somos observados o tempo todo. Somos notados o tempo todo com nossas bengalas e chapéus. Se a barba está bem feita, se estamos escovados e engomados, se escovamos os dentes, se o perfume veio realmente conosco até a sala de aula. 

Como é que se constrói esse personagem? Ou estes personagens? Penso que quanto mais teatral foi aquilo que me foi dito é o tanto quanto permaneceu em minha mente. Não se trata de máscaras para ocultar. Trata-se de máscara para revelar. Não se trata de criar personagens para esconder, mas para revelar. Revelar nossas histórias, aquilo que precisamos contar, aquilo que queremos ensinar.
Se você quer realmente usar música em sala de aula, então, prepare-se para cantar. Prepare-se para ser o primeiro a cantar. Prepare-se para que alguns alunos estranhem e ensaiem um riso de surpresa. Se você usar música em sala de aula, tem que se expor primeiro ou então eles jamais arriscarão a fazer o mesmo.


Não se trata de acordar, ir direto à escola e ensinar sem ensaiar. É preciso ensaiar o texto, verificar se o lado esquerdo da sala é melhor ou o lado direito. Perceber se estamos sempre do lado direito da sala de aula e prejudicamos a visão de uma parte da plateia. Ou se ficamos excessivamente do lado esquerdo e atrapalhamos a outra parte. Retocar a maquiagem: essencial. E, que fique bem claro: dentro da sala de aula, somos atores e diretores. Diretores de nós mesmos. Pelo bem ou pelo não tão bem assim. Por isso é que precisamos ajustar constantemente a nossa performance.
Não se trata de entender que o professor deve ter uma vida pessoal fora da sala de aula. Trata-se de compreender que, dentro da sala de aula, devemos ser muitos. Estudar as múltiplas inteligências tão bem defendidas por Celso Antunes em solo brasilianista pode nos dar uma luz. Luz natural.Sempre tive uma visão divinizada ou divinizadora sobre os meus mestres e mestras. Sempre tive impressão que era tocado por algo divino ao ouvir suas palavras de conhecimento, de sabedoria. De alguma forma, percebia que o conhecimento dado em colheres de sopa de açúcar sempre saciava minha fome de conhecer e saber mais. Mas professores não são divinos. Divino é o que eles carregam.

Depois de muito tempo fui perceber que os mestres e mestras tinham vida pessoal e que diferiam entre o palco da educação e a plateia da vida pessoal. Entendi por que encontrar os mesmos atores que estavam sobre o palco eram diferentes daqueles que saíam do camarim. 
Uma pitada de exemplos. Uma colher de sopa de criatividade. Uma lata de histórias em conserva. Uma fatia generosa das melhores palavras. Uma aula digerida com conhecimento. Professores e seus personagens, alquimistas do saber. Mas o professor não é um ator. Um professor é o próprio personagem da história. Ele é a história. Assim somos nós. 

Dedico esta reflexão àqueles mestres e mestras que pensam antes de dormir sobre como melhor explicar um assunto para seus alunos. Estamos buscando a bengala de Chaplin. Como assentar um assunto dentro de mentes que esperam por exemplos. Estamos afoitos à procura do chapéu de Carlitos. À procura do nosso chapéu. “Se eu explicar desta forma, será melhor. Se eu der este exemplo, eles certamente entenderão melhor. Se eu usar aquela música, aquela figura, aquele site, eles compreenderão o tema em sua plenitude”. E só então vão dormir. Dormir o sono tranquilo, pois a resposta daqueles problemas que pensamos à noite virá logo pela manhã. Boa noite, Carlitos. 


Lindo texto, não é?
Então, um beijo e uma ótima semana aos personagens que voltam aos palcos amanhã.

x_3c1cc2a1

Um comentário:

Prô Cris Chabes disse...

Olá Vanessa, que linda essa reflezão
Adorei esse texto pois faço parte dele, como professora, como pesquisadora, como mediadora, como aprendiz, como personagem do saber, assim como Chapplim e como nossos alunos.
Agradeço imensamente pela aprendizagem proporcionada.
Acho que achamos nosso "chapéu" quando nos tornamos professoras.
Beijocas
Cris Chabes