6 de janeiro de 2012

Meu "pestinha" favorito

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No início do ano letivo de 2011, como professora de 1o. ano (antigo pré = turma com 6 anos) conheci o meu pestinha favorito "W".
Bem na verdade não sabia que ele se tornaria meu aluno favorito, nem que daria tanto trabalho na sala e na escola toda.
Calma caro leitor, chegue ao final do texto. Eu posso chamá-lo de meu "pestinha" favorito, sem com isso utilizar de preconceito ou contrariando a ética e moral, pois me derreti de amores, depois de muito trabalho, por esse aluno.
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No começo do ano, W deixava-me maluca.
Eu não entendia o por que de tanta agressividade com todos.
W ria quando o outro chorava com dor por seus chutes, socos, empurrões.
W roubava objetos de todos, inclusive da minha bolsa.do armário da escola, da mochila pendurada nas costas dos amigos da fila.
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W não deixava ninguém fazer suas tarefas, derrubava o estojo das crianças, puxava o caderno, riscava com o próprio lápis o caderno do coleguinha.
No recreio jogava objetos na cozinheira, na inspetora, na diretora. Pegava lanche das crianças, pisava em cima, jogava pelo murro da escola.
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Meu Deus!


Sempre ia parar na coordenação, direção, secretária.
Um dia, a família de W foi chamada e sua história relatada. Seu pai morreu antes de nascer, vitima das péssimas escolhas que fez na vida. Sua mãe, abandonou o lar, alguns anos depois. Por caridade vivia na casa da bisavó que não tem mais idade, dinheiro e saúde para cuidar de duas crianças hiperativas e com baixa auto estima. Viviam das doações de pessoas da vizinhança e da família.  A dureza da vida, mesma antes de crescer, os fazia mais hostis com todos.  Na outra escola bateu na professora e apanhou tanto em casa que todos foram parar na delegacia. No projeto social que frequentava a tarde, perdeu a vaga, devido a agressividade com outras crianças.


Tomamos uma decisão conjunta com a coordenação. Ele não seria suspenso, mas ficaria alguns dias sem recreio, pois os "grandes" queria pegá-lo e quando retornasse ficaria sempre acompanhado de um adulto.
Achei que isso o deixasse com mais raiva e resolvi ficar junto com ele por algum tempo, acompanhando-o no recreio, nas atividades extras classe, mas sempre mostrando o certo e o errado nas relações com as pessoas.
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W começou a sentar a meu lado na sala. Começou a me ajudar a entregar livros, guardar agendas.  Ora ele ficava comigo no recreio ou com a diretora. W tinha que pedir desculpas, devolver objetos e compartilhar os seus. Se ele aprontava ficava sem a aula  que mais gostava "Artes".


Aos poucos foi acalmando. Sentido-se acolhido. Os amigos começaram a querer brincar com ele.
Mas a cada segunda feira, após o final de semana, W chegava muito agitado e nervoso no escola. Precisava de mais atenção, carinho e cuidados.


Decidi que todos as vezes que ele chegasse mais nervoso, ficaria novamente comigo até a raiva passar.


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Ele aprendeu a ler.
Ele começou a ajudar seus amigos nas lições.
Formou dupla com uns dos meninos mais calmos da sala.
As vezes pegava ele guardando na mochila algo que não era seu. Chamava-o no canto e dizia: Abra sua mala e devolva o que pegou antes que eu o faça na frente de todos.
E o tempo passou.
Não brigava com as crianças de nossa sala e com os grandes começou a diminuir as provocações.


No último dia de aula, fizemos uma festinha. Todos trouxeram pratinhos. Antes de W ir embora, encheu os bolsos de brigadeiro e já ia saindo de fininho. Previamente eu já tinha separado alguns doces, bolos, pipocas e guardei tudo para que os demais não vissem. Chamei W quando ele já estava na porta:
- Ei mocinho, onde vai sem me dar um beijo?
Meio sem graça de aproximou com as mãos escondendo a abertura do bolso. Me beijou e antes que virasse as costas eu falei.
- Coloque o que há em seu bolso dentro desta sacola.
Meio sem graça, foi tirando tudo, mas quando olhou dentro da sacola, seus olhos de arregalaram e um sorriso maravilhoso se fez em seu rosto.
- É para mim?
- É claro que sim. Pode levar tudo para comer com seu irmão mais tarde
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W Sorriu com a carinha mais lindo do mundo. Sorriu com um brilho nos olhos que não vi no início do ano. Sorriu quando eu o abracei e disse baixinho no seu ouvido: Eu gostei muito de ser sua professora.


Alguns dias depois a diretora perguntou-me: Com qual série você quer trabalhar no próximo ano? Eu respondi 2o. ano. Ela disse: "Não se preocupe, fiz algumas mudanças com os alunos mais danadinhos e W não será mais do 2o. B, mas irá para o 2o. A com crianças diferentes.


Ao que eu respondi:
- Então tá eu fico com o  2o. ano A e com W


Ele ainda não sabe disso.
Peço a Deus que em suas férias ele não sofra tanta violência e que no próximo ano eu possa ajudá-lo a acreditar mais nas pessoas e no mundo.


Beijocas
Cris Chabes

11 comentários:

Andréia Sales disse...

Posso chorar?
Que emocionante história Cris.
Parabéns.

Renata Marques disse...

Ah se todos os professores pensassem e agissem assim...

melissa disse...

Nossa Cris,me lembrei de vários alunos que tive assim!Eles ficam para sempre em nossa memória! Alguns não tiveram finais felizes,após 10 anos soube que um foi preso por tráfico e outro morreu assassinado...Mas tentamos fazer a diferença e isso é o que importa!

melissa disse...

Nossa Cris,me lembrei de vários alunos que tive assim!Eles ficam para sempre em nossa memória! Alguns não tiveram finais felizes,após 10 anos soube que um foi preso por tráfico e outro morreu assassinado...Mas tentamos fazer a diferença e isso é o que importa!

Genis disse...

Cris, que coisa linda esse post... me emocionei muito e chorei até...
Conhecemos muitos alunos assim, mas falta sensibilidade nos professores, essa sensibilidade que vc teve em demonstra amor, sem perder a autoridade com doçura...
Linda história...
Imagino o que essa criança passa no seu dia a dia e estar com vc, faz toda a diferença.
Vc está regando uma plantinha...
Amei!
Beijos e compartilhe sempre sobre "W".

- Amei as fotos do Chaves, ficou demais!

Genis ♥

Mhárcia Evart's disse...

Pois é vc não é uma professora, mas uma grande educadora. as pessoas não tem muito conhecimento sobre essa diferença. Mas educadores são seres que além de tentar passar conteúdos didáticos aos seus alunos, passam valores humanos, dão amor, carinho, e tentam fazer do dia a dia destas crianças dias melhores.
Quando tiver um tempinho, faça-me uma visita, ficarei muito feliz. bjks no seu coração!!!

Patricia Costa disse...

Parabéns pelo depoimento Cris! Belíssima história que nos mostra que mesmo em meio ás adversidades do cotidiano, com carinho, amor e dedicação aquilo que se faz, é possível sim, senão mudar a realidade das nossas crianças, ao menos plantar uma sementinha do bem, que já é de grande valia.

Carol Damasceno disse...

Cris nem consigo segurar as lágrimas... Que história linda.. Quanto amor em suas palavras...

Retribuir tapas com beijos é um ótimo caminho para o bem..

Beijos e bom fim de semana

Carol

Maria Marlene disse...

Minina lindaaa!! Que depoimento maravilnhoso... que lição de amor! Como não se emocionar? Pessoas como vc, educadoras como vc, fazem a diferença! ParabénsCris!!! Bjus no seu coração e sucesso no ano letivo de 2012 com o W. Deus abençoe todos os seus passos e a ele também.

Vanessa Vieira disse...

Nossa Cris... Estou aqui arrepiada com teu relato... Que lindo!!! Que bom seria se todos os alunos como o W tivessem uma professora com as mesmas preocupações que você. Nota 1000 Amiga. Ah... Não deixe de nos contar as aventuras de seu pestinha favorito em 2012 viu!!!! Adorei!!! Vou compartilhar com todo mundo... Professores precisam saber desta linda história!!!!!! Beijos!!!

Prô Cris Chabes disse...

Agradeço a todas que comentaram esse post.
Saibam que o meu querido W fará parte de outras histórias narradas aqui e no meu blog
Que novos desafios venham para todas
nós
Beijocas
Cris Chabes