1 de julho de 2011

Eu aprendi a ler e só tiro parabéns!

Estou fazendo um curso sobre Casos de Ensino na Alfabetização e recebi como tarefa a analise deste relato. Já entreguei o trabalho mas resolvi compartilhar   umas das questões com vocês. Esse trabalho me ajudou muito a observar algumas situações vividas em sala. Então leia o texto e comente, seu olhar pode ajudar outros professores que enfrentam situações parecidas. 
Beijocas
Cris Chabes

Suponha que você fosse professora de D e lesse sua narrativa. Você considera que as informações contidas no caso a ajudariam a compreender melhor seus alunos?

       A Minha História Verdadeira
      Meu nome é D e eu gosto de estudar, ler gibi e gosto de comer chocolate, bolos e bolachas recheadas de sabor morango. Eu tenho treze anos, moro na Vila Mineira e tenho nove irmãos. Três moram comigo e seis moram em outra casa, porque eles já são grandes. Os irmãos que moram comigo chamam L M, M R e S. A minha vó A e a minha mãe G e meu padrasto R também moram comigo.
      O meu pai chamava L, quando eu e meu irmão M R éramos pequenos ele foi trabalhar, teve uma briga do amigo dele e o tiro acertou nele. Foi um monte de família minha lá e teve um velório que foi lá em casa. Quando eu cresci mais a minha mãe me contou o que aconteceu com meu pai. Todos os dias eu levanto às cinco e meia, às vezes seis e quarenta e cinco e tem vezes que seis e vinte. Vou pra escola com a minha amiga JA, não tomo café porque a minha avó não levantou.
      Chega na escola a gente faz a tarefa que a professora manda. Depois da aula eu vou com a JA e tem vezes que eu vou com a L. Chego, limpo a casa, limpo o banheiro, lavo as vasilhas, limpo a mesa e o fogão, arrumo as camas, tem vezes que passo roupa e tomo banho pra ir pro PETI e eu almoço. Vou para o ponto de ônibus e chego lá no PETI e cada um vai pra sala de aula, faço aula de dança e de canto.
     Depois que termina o PETI eu vou assistir Pica pau e logo fica de noite e eu vou assistir os Mutantes, A Favorita e Chamas da Vida. Depois eu durmo e no outro dia eu faço as mesmas coisas, vou pra escola. Eu gosto de ter esses livros da biblioteca, mais as historinhas da Mula sem Cabeça do Saci, de Princesa, do Pooh, Chapeuzinho Vermelho, do Pinóquio. 
     Eu não sabia ler muita coisa, só agora eu sei mais. Algumas coisas eu sei mais. No ano passado eu não sabia ler as palavras de três, por exemplo, também - descobre etc. Agora eu sei. A minha mente é inteligente pra aprender matemática, geografia, ciências, espanhol, inglês.
     Um dia eu estava na aula de português e a professora Ádria chegou e falou que era pra mim ir com ela, que ela ia me ajudar a escrever. Eu fiquei feliz porque eu fui escolhida, eu e JO.
     As minhas amigas e meus amigos queriam participar e ficavam falando: Chama eu também, Ádria. E ela falou: Não, só a D e o JO. Eu sentia o coração legal quando a professora Ádria me chamava, eu e o JO.
     A gente conversava, lia historinhas. Eu ganhei quatro gibis e assim as coisas aconteceram. Eu fui aprendendo a ler bem, bem e escrever bem, bem, bem.
     No começo do ano eu tinha vergonha de ler perto dos alunos porque eles ficavam rindo e fazendo gracinha, falando que eu não sabia ler. Agora eles não falam nada, eu tenho menos medo de ler perto dos alunos porque agora eu sei ler muito legal, de rachar os corações.
     Depois que eu aprendi a ler eu sou só Parabéns em todas as matérias. Eu me sinto muito feliz em ser só Parabéns.

Narrativa extraída: RODRIGUES, Ádria Maria Ribeiro. O silêncio e a transgressão: contribuições das Narrativas de uma menina e de um menino com trajetórias marcadas pelo insucesso na leitura e na escrita. 2009. 196 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT. Cuiabá, 2009.

2 comentários:

Cida Kuntze disse...

Oi Cris!
Gostei muito de ler essa narrativa.
Com certeza as informações contidas no caso me ajudariam a compreender melhor os meus alunos. Acho muito importante sabermos mais sobre os nossos alunos, suas histórias de vida.
Beijinhos e um ótimo final de semana.

Educação em Foco disse...

Cris, com certeza ajuda e muito!
Eu questionei minha diretora esses dias, pq sempre obtemos informações sobre a vida pessoal do aluno só no conselho de classe e isso deveria ser feito logo no início do ano.
Nosso olhar muda, com certeza!
Bjks, Genis ♥