24 de março de 2011

Como falar de sexo com as crianças?

Eu tive uma turma de 5º ano muito diferente das outras turmas que tive antes.
Já falei sobre eles algumas vezes aqui no Blog.
Os alunos eram muito curiosos e me deixavam louca com tantas perguntas.

Não tinha um só dia que podia chegar despreparada, sem ter um planejamento prévio bem elaborado.
É verdade que meus planejamentos quase sempre eram mudados e improvisados de última hora, pois eles eram capazes de fazer com que eu mudasse tudo de uma hora pra outra....rsrs
Isso me fez crescer muito como professora.


Eles esperavam ansiosamente pela Aula de Ciências.
Apesar de não termos um horário específico de aulas, eles sempre perguntavam: Profª, hoje vamos ‘usar’ o livro de Ciências?
Eu achava o maior barato esse tipo de pergunta.
Na verdade, o que eles queriam perguntar era: Profª, quando iremos falar sobre sexo...?


O livro de Ciências (Interagindo, Ed. do Brasil), traz um capítulo sobre “O controle do organismo e sua capacidade de reprodução”.É claro pessoal, que a garotada já tinha pelo menos olhado as ‘figurinhas’ que o livro trazia sobre o assunto...


Não pude esperar muito e deixar que esse assunto se encaixasse perfeitamente em algum projeto em andamento na escola.
Os alunos a cada semana ficavam mais curiosos e as perguntas eram quase que diárias sobre o ‘uso’ do tal livro de Ciências.


Bem, para acabar com o ‘fogo’ da galerinha, fiz o seguinte:
  • Fiz uma urna usando uma caixa de sapato para que eles depositassem as perguntas sobre o assunto.
  • Pedi para que eles fossem bem sinceros ao escrever as perguntas e não precisariam colocar o nome (detalhe: eu conhecia a letrinha de cada um de longe...rsrs).
  • A caixa ficou numa mesa no fundo da sala durante uma semana.
  • Marquei então um dia o qual eu iria responder TODAS as perguntas feitas por ele.
Vou confessar um crime, levei a caixa pra casa e li todas as perguntas antes...
É claro, eu precisava me preparar para as respostas!!


O tão esperado dia chegou!
Coloquei a caixa sobre minha mesa e fui abrindo pergunta por pergunta e em voz alta eu lia e respondia.
Meu Deus! Cada pergunta ‘cabeluda’!!!!rsrs


Nesse dia, ficamos por conta disso. Foram muitasssssssss perguntas, dezenas e dezenas.
Algumas se repetiam, mas mesmo assim eu lia e respondia novamente na certeza de que não ficasse nenhuma dúvida.
Uma aluna no final do dia me disse assim: Profª, vou ser freira... rsrs


Antes de realizar essa atividade, eu conversei com a minha Coordenadora Pedagógica e li algumas perguntinhas pra ela.
Eu não podia ficar sozinha nessa.
Eu não sabia como as famílias iriam reagir.


No outro dia, após a ‘aula de sexos’, vários pais mandaram bilhetinhos nas agendas.
Eu havia pedido para que as crianças falassem com os pais sobre a aula e etc.
A reação dos pais foi muito positiva.
Uns me procuraram pessoalmente e me agradeceram porque não sabiam como falar com os filhos sobre o assunto e tinha certeza que eu o fiz de forma certa e cuidadosa.


Depois desse dia, a curiosidade dos pequenos cessou.
Consegui uma maior cumplicidade com eles e sempre procurava agir o mais natural possível.
Penso, que o mais importante foi minha preparação prévia sobre o assunto.
Ter lido as perguntas antes de responder fez toda a diferença!


Procurei fazer uma relação com os conteúdos do livro às perguntas deles (sistema genital masculino e feminino, ciclo menstrual, gravidez, puberdade, anticoncepção, DST, homossexualismo etc etc etc).
Respondi a TODAS as perguntas, sem exceção, e isso também fez com que eu conquistasse a confiança de cada um.


Se você não sabe como conversar com seu filho ou com seus alunos sobre sexo, deixo aqui a sugestão da urna de perguntas e abaixo um texto muito bacana de “Como falar de sexo com as crianças”.


Boa sorte! Genis




Como falar de sexo com as crianças?

O simples fato de pensar em falar com as crianças sobre sexo deixa a maioria dos pais apavorados. Apesar de a maioria dos adultos com filhos se considerar responsável pela tarefa, pesquisas demonstram que a mesma é freqüentemente adiada até o momento em que alguma situação torna a questão imperativa e inevitável.



Como as crianças dificilmente vão receber informações honestas, positivas e adequadas sobre sexo de outras fontes e uma educação sexual ampla vai permitir que elas façam escolhas saudáveis e felizes quando adultas, selecionamos algumas dicas para ajudá-la a falar com suas crianças sobre sexo.
  • PREPARE-SE. Este é o passo mais importante que a maioria de nós esquece! Apesar de nossas melhores intenções é muito fácil adiar o papo com as crianças até o momento que nos deparamos com nosso filho brincando de médico e enfermeira com o filho do vizinho ou se masturbando na sala. Portanto prepare-se com antecedência para não ter que improvisar.
  • AVALIE O QUE É IMPORTANTE PARA VOCÊ EM RELAÇÃO AO ASSUNTO. Pense em quais são seus valores sexuais, sobre como você aprendeu sobre sexo e se quer que a experiência dos seus filhos seja igual à sua. O que você pensa que seus filhos devem saber sobre sexo? Onde você acha que eles devem obter informações sobre o assunto? Quais são as suas atitudes pessoais em relação ao sexo? Quais são os valores de seu parceiro/a? Converse com ele/ela e definam em conjunto e de forma consensual sobre a maneira que desejam educar os seus filhos sobre sexo.
  • FALE SOBRE SEXO. Falar sobre sexo é difícil na nossa cultura. Se você tiver dificuldade em falar no assunto com seus amigos e parceiro/a falar com suas crianças provavelmente será mais difícil ainda. Pratique. Pode fazer uma enorme diferença na sua vida sexual e no seu dia a dia contar com uma rede de relações (amigos, parentes) com os quais você pode conversar de forma normal sobre sexo. Descubra um vocabulário com o qual você fique confortável. Pense em frases para falar para as crianças. Por exemplo, qual a frase que você usaria para definir sexo?
  • REVEJA A IDÉIA DO "GRANDE PAPO”. Sexualidade é um assunto muito importante nas nossas vidas para se resumir em uma única conversa. Pense em se tornar para as crianças uma espécie de orientadora ou conselheira que estará disponível para dar respostas às indagações que elas tiverem a cada momento. Tire proveito das situações que surgirem no dia a dia - temas de sexo em filmes e novelas da TV, cenas de bebês e mulheres grávidas. E lembre-se de repetir as lições várias vezes de diferentes maneiras.
  • AMPLIE SUA NOÇÃO DE EDUCAÇÃO SEXUAL. A maioria dos currículos de educação sexual das escolas limita-se à questão da reprodução ou no máximo sobre transmissão de doenças, sexo seguro e controle de natalidade. Existem boas razões para ensinar mais do que estas noções básicas para as crianças e principalmente para os adolescentes. Muitas meninas desta faixa etária apresentam problemas de DST (Doenças sexualmente transmissíveis) porque aprenderam que sexo é intercurso vaginal e não sabem que sexo oral ou anal também representa um risco potencial para a transmissão de doenças. Quando ensinamos para as crianças habilidades sociais tais como ser um bom amigo, damos a elas ferramentas para manter relacionamentos adultos bem sucedidos. Lições cotidianas sobre privacidade, respeito aos limites pessoais e consentimento são cruciais para construir uma vida sexual futura saudável e bem sucedida.
  • PROCURE PENSAR COMO CRIANÇA. Crianças pensam de forma literal. Como conseqüência o uso de metáforas sobre passarinhos pode não funcionar e dar margem a muitas dúvidas. É importante ensinar para as crianças sobre seu próprio corpo e sobre o corpo humano. Não se preocupe em falar "demais" muito "cedo" estudos demonstraram que falar honestamente sobre sexo com as crianças não causa nenhum dano psicológico. Ao contrário, demonstram que as crianças que recebem educação sexual de forma consistente fazem escolhas melhores para si mesmas quando adultas e apresentam menor nível de DST e de gravidez indesejada.
  • SEJA HONESTA. É muito importante ser honesta nas informações que você passar para as crianças e, mais ainda, ser honesta em relação a como você se sente falando no assunto. Se se sentir desconfortável ou apreensiva falando no assunto fale francamente o quanto a tarefa é difícil para você. Experimente uma destas frases: "Eu me sinto meio desconfortável falando de sexo, mas me sinto feliz que você tenha feito esta pergunta..."; ou "Eu fico com medo de falar sobre este assunto com receio que você...” Você não precisa saber tudo nem se transformar em uma especialista para responder as perguntas. Consulte alguns livros sobre o assunto como: “Sexo: Como orientar seu filho" de Marcos Ribeiro ed. Planeta do Brasil, "Sexo: é hora de conhecer" de Drica Pinotti da ed. Alegro ou "Conversando com a criança sobre sexo" de Gerson Lopes e Mônica Maia da editora Autentica.
  • FALE DE FORMA POSITIVA. Muitos de nós aprendemos as noções básicas sobre reprodução em aulas de educação sexual sempre seguida das seguintes advertências: "Não pratique sexo. Você pode pegar uma doença e até morrer" ou "Você pegará uma doença que vai arruinar a sua vida" ou "Você ficará grávida e vai arruinar a sua vida..." Apesar de vivermos em uma sociedade que inunda os espaços públicos com imagens sexuais para alimentar o consumismo não há ninguém que nos diga que sexo é uma parte boa, feliz e saudável da vida adulta. Infelizmente não passamos esta imagem para as crianças. Portanto encontre formas de passar valores sexualmente positivos nas suas conversas com as crianças. Isto pode incluir ensinar tanto as meninas quanto os meninos sobre menstruação, falar sobre masturbação, sobre a necessidade de aceitar pessoas com diferentes inclinações sexuais, definir palavras como orgasmo e ereção e mostrar para as meninas onde fica o clitóris e como ele funciona.
  • COMPARTILHE SEUS VALORES. Fale com as pessoas que cuidam de seus filhos ( babás , empregadas, professoras, avós, tias etc.) quais são seus valores sexuais e de que forma você denomina as partes do corpo. Combine com eles de que maneira quer abordar as questões sobre sexualidade que possam surgir na sua ausência.
  • NUNCA É CEDO DEMAIS. Com 5 anos de idade ou com 15 anos nunca é cedo para abordar tópicos relacionados com a sexualidade. O ideal é o mais cedo possível. Apesar de ser mais fácil falar com as crianças menores porque elas ainda não se sentem envergonhadas de seu corpo na nossa sociedade normalmente se espera até a pré adolescência que é exatamente o período no quais as crianças estão mais inconfortáveis com relação ao seu corpo e quando elas não querem muito "papo" com adultos em geral e com os pais em particular.
  • NUNCA É TARDE DEMAIS. Se você adiou a conversa sobre sexo até seus filhos se encontrarem na adolescência seu trabalho certamente será mais difícil, mas continua sendo de sua responsabilidade. Nunca é tarde para dizer: “Sabe eu me sinto muito mal de nunca ter falado com você sobre sexo. Eu me sentia muito embaraçada para falar neste assunto antes, mas...”
5º ano de Escolaridade - Professora Genis



Um super beijo e paz,
Profª Genis.

Twitter: @genislene


7 comentários:

Regiane disse...

Oie Carla
Post delicioso...obrigada por dividir!
Está super convidade para uma visita lá no meu cantinho da blogosfera...
Beijos
Regiane

melissa disse...

Um assunto delicado, tratado da maneira mais natural possível!Parabéns pela abordagem Genis!

Vanessa G. Vieira disse...

VOCÊ É NOTA 1000! Adorei seu post, vou guardar as sugestões aqui no meu pc! Você é mesmo fantástica Genis. Adoro suas postagens. Já conheço o seu jeitinho de escrever! Que barato! =)

Angela disse...

Adorei, sua forma de abordar o assunto eu como mãe, que aprendi sobre sexo com amigos, quero conversar com minha filha, mas confesso que será difícil, mas acredito também que será melhor pra ela saber por mim, já que ela é bem tímida.

Paula Miranda disse...

Professora, boa noite. Primeiramente, gostaria de parabenizá-la por seu blog. Suas experiencias são de muita valia. Poderia me indicar algum livro sobre sexualidade para eu comprar para uma criança de 9 anos (menino). Já tenho conversado com ele à respeito, quando surgem as perguntas, mas gostaria de um material de apoio. Obrigada. Paula Miranda

Anônimo disse...

Parabéns pelo post, um dos melhores que eu já ali até o momento.

Mary Neide Damico Figueiró disse...

Prezado leitor, para continuar agregando conhecimento a esta discussão, proponho a leitura do livro que acabo de lançar, intitulado "Educação Sexual no dia a dia" (EDUEL 2013). É uma ótima ferramenta para que pais e professores possam preparar-se para trabalhar o tema em casa, na escola e demais ambientes sociais. Por meio de exemplos de fatos e situações do dia a dia, acontecidos em casa e na escola, ensino os princípios básicos da Educação Sexual. Analiso cada fato e mostro pontos positivos e pontos falhos na forma como o adulto lidou com o ocorrido, deixando claro qual seria a maneira correta de agir e porquê.

Muitas são as dúvidas e perguntas que permeiam a mente dos adultos. Como falar sobre sexo com o meu filho? Quando a criança faz uma pergunta, devo responder só o que ela perguntou? Como falar para crianças de idades diferentes? Como explicar de onde vêm os bebês?

Sou psicóloga, doutora em educação e professora sênior da Universidade Estadual de Londrina. Conheça esta obra, tenho certeza de que será uma ótima oportunidade de crescimento. No link abaixo é possível encontrar mais informações:
http://www.maryneidefigueiro.com.br/publivros.php